sexta-feira, março 24, 2006

Humphrey Saiu do Frio

No domingo recebi a notícia pelo The Sun: "Política Britânica de Luto. Morreu uma lenda ". O Público atacou com a parangona da última página de segunda-feira, "Morreu Humphrey". Fiquei triste, porque o conheci.
Humphrey era um ilustre funcionário do nº 10 de Downing Street, tendo entrado ao serviço ainda durante o consulado da Dama-de-Ferro Maggie Thatcher, em 1988. Este Humphrey era um respeitável indivíduo que por diversas vezes viu o seu nome arrastado para os jornais e até ao parlamento britânico. Numa vez quase foi atropelado pela limousine de Clinton e por pouco não despoletou uma crise diplomática entre bifes e yanques, só porque o rapaz passeava distraído pelas traseiras da casa.
Mais recentemente foi motivo de sururu no parlamento britânico,quando os Blair o exoneraram do seu cargo de vigilante da casa, porque aparentemente dormitava demasiado em serviço. Aí, o conservador Alan Parker receava que o moço tivesse sido abatido pelo SAS ou pelo MI6, exigindo provas da sua existência. Humphrey fez-se então fotografar em frente a um jornal diário fazendo prova de vida, qual refém de guerrilheiros columbianos.
Morre Humphrey e com ele morre a verdade sobre o sangrento assassinato da família de piscos que habitava as sebes do nº 10 da rua-que-desce, crime que lhe havia sido imputado mas logo desfeiteado pela cunha de John Major, que se encarregou de mandar arquivar o caso na penumbra dos arquivos da Torre de Londres.
Humphrey, um gato vadio que sabia muito, tal como os personagens de John Le Carré.

quarta-feira, março 08, 2006

Dois apontamentos por ordem de significância

I. Ontem morreu Ali Farka Touré. Quem não sabe quem ele era e o representa não passa de um infeliz ignaro.

II. Hoje, dia internacional da mulher, não me ocorre festejar a efeméride mais imbecil de todas, a que lembra à mulher que ela só o é no dia 8 de Março de cada ano. Por isso as minhas homenagens às mulheres que não ligam patavina a esta merda e até se sentem ultrajadas com estes festejos.

p.s. Aborrece-me constatar que o meu alter-ego é semelhente ao meu eu. E que 829 pessoas já meteram aqui as vistas. E ainda nem sequer passou um ano.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006

Carta Aberta a Margarida Rebelo Pinto

Cara Senhora,
No jornal METRO de 22.02.2006 apareceu uma pequena coluna de opinião de Vossa Excelência. No seu profundo e inconfundível estilo literário que faz gala nos escaparates dos hipermercados desta gloriosa nação, escreveu a linhas tantas: «Júlio Isidro faz parte do património nacional do audiovisual». Mais à frente continuou, «graças à sua fisionomia peculiar e o seu estilo um pouco pomposo, tornou-se no estereótipo do apresentador à antiga portuguesa (...) Até eu, há quase 20 anos no Jornal “O Sete” tive a veleidade de lhe chamar Pateta Alegre numa coluna de crítica televisiva onde me divertia a arrasar as figuras mediáticas da época. Anos mais tarde, quando o conheci pessoalmente, descobri uma pessoa tranquila e simpática (...) Nunca, em algum momento em que me entrevistou em directos ou falou comigo particularmente, me referiu a crónica impensada e juvenil em que o criticava». Da glosa deste escrito podemos concluir o seguinte:

1º Vossa Excelência, imbuída de uma obscura autoridade, deverá julgar que foi a única a visionar a fastidiosa programação televisiva portuguesa dos últimos vinte e cinco anos, ao manifestar o portentoso silogismo «Júlio Isidro faz parte do património nacional do audiovisual»; se não o tivesse afirmado, ninguém o havia notado. Parabéns!

2º Se a ideia era engrandecer-se por referir a sua colaboração no jornal O Sete, o tiro saiu-lhe pela culatra. O Sete era um tablóide semanal estilo pasquim que nem para embrulhar peixe servia pelo excesso de tamanho da folha e apresentava tal prosápia transformada em linhas e palavras que poluíam de negro o branco sujo das páginas cruas, que daquela guisa inquinadas, nem para limpar o cú serviam, porque não se limpa merda com merda.

3º A Senhora afirma que se divertia a arrasar as figuras mediáticas da época. Em 1986, que me lembre, não havia assim tantas figuras como isso, eram para aí seis ou sete, e arrasá-las deveria ser uma espécie de obra inversamente proporcional ao trabalho titânico. Assim, podemos afiançar que os sinónimos hercúleo, plural, diversificado, vasto, intrincado e crítico não servem à caracterização das crónicas por Vós redigidas. Para desancar o Júlio Isidro, bastava muito simplesmente assistir ao Passeio dos Alegres (um excelente programa de entretenimento diga-se sem ironias) e anotar as tiradas do Carlos Miguel, o Fininho, que aludia religiosamente e passo a citar, às orelhas grandes, ao nariz de papagaio, às perninhas de alicate, etc., etc., etc. Mas assim não seria criticar, mas sim insultar.

4º A alarvidade juvenil em almejar o sucesso e o reconhecimento é aqui tão patente que a Senhora acaba por confundir o cavalheirismo e personalidade do Sr. Júlio Isidro com puro e simples desprezo que ele lhe votou pela “crónica impensada e juvenil em que o criticava”, porque lá diz o povo coração que não vê, coração que não sente e não se pode valorizar positiva ou negativamente algo que não conhecemos, como foi o caso.

Senhora Margarida
No rodapé da crónica aparece o seguinte: Margarida Rebele Pinto é escritora. Eu não gosto de literatura de adolescente à la Richard Bach, mas gostos não se discutem; defendo, contudo, que as suas opiniões, mesmo que sejam exames da consciência, não deveriam andar por aí impressas e a desvalorizar jornais gratuitos.
Atentamente,
Croius

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

As Joaninhas e os Gatinhos

Querem saber que emprego é melhor que o de crítico de cinema (actividade extenuante em que alguém é pago para ver filmes)? É ser produtor dos programas do canal do momento, destinado ao público da faixa etária 0-3 anos, senhores e senhores, o babytv da foxlive. Para quem nunca viu, aquilo é só iiiiiihhh’s, uuuaaahhhh’s e tudo muito colorido e lento. Dois minutos e doze segundos de visionamento e tem-se a sensação de que se está a aspirar o subproduto da combustão de uma lareira a queimar ganza.
Mas aquilo que me dá a volta à cabeça são as razões para haver um canal deste tipo. A matemática é simples: a publicidade constitui o grosso da receita na perspectiva de quantos mais virem o canal, mais se ganha. Se assim é, que tipo de publicidade pode aliciar miúdos dos 0 aos 3 anos? Que é que eles poderão querer comprar? Ainda por cima com a agravante de eles ainda não dominarem a arte da chantagem emocional com adultos em tão provetas idades para poderem exigir através de fezes/ gritos/ choradeiras/ vomitado (riscar o que não interessa) a roca/ leite/ fralda/ monica belluci para ama (não é preciso riscar, já se sabe o que interessava).
Aqui entra a teoriazita. Um programa que lá bate certinho é o dos teletubies. É educativo, com enredo e polémico. Porque, aparentemente, o tal teletubie de cor violácea parece ser lóló. Igualzinho aos filmes porno. Eu não quero parecer homofóbico, mas eu tenho a certeza que se colocar um dvd dos teletubies de trás para a frente num gira-discos a setenta e oito rotações, ouve-se distintamente as letras g-a-y-p-o-w-e-r. Um programa para esse canal poderia ser, obedecendo à prerrogativa dos guiões com cor, lentidão, barulhinhos e alguma polémica, aquele da vida selvagem com as joaninhas a foder. Porque de pequenino ...

No outro dia tive um sonho estranho. Estava não sei onde, talvez numa festa de despedida de empresa; saí mais cedo da festa e, no caminho para a rua, dei de caras com um tipo que parecia o Drogba do Chelsea, todo vestido às cores e cabelos rastafari meios tapados pela tradicional touca tricolor. Veio em direcção a mim e abraçou-me com aquela naturalidade dos jamaicanos que são amigos de toda a gente (apesar de ele ser côteivoirense - os meus sonhos são transfronteiriços). Disse-me qualquer coisa como tudo-em-cima-má-méne. Quando voltei as costas distingui entre as sebes da propriedade dois pequenos vultos, dois gatos: um deles todo preto com a testa coberta com o mapa de África terçado a verde, amarelo e vermelho; o outro parecia que tinha vestido uma camisa havaiana. Lembro-me de ter sorrido para os gatos e eles sorrirem para mim.
Para provar que não sou homofóbico, eu não fiquei preocupado por ter sonhado com o Drogba, mas sim, por causa dos dois gatos coloridos e sorridentes. É que se juntarmos isto aos caldos de ganza e substituindo-se por cogumelos, a única história que tem gatos a rir é alice no país das maravilhas do lewis carrol e toda a gente sabe que esse livrinho tresanda a homossexualidade.

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

A Liberdade de Confusão

Problema velho de meses, a discordância por parte de alguns frisos da sociedade islâmica no concernente a um projecto de um jornal dinamarquês apostado em realizar uma jam session com cartoonistas de modo a perceber-se qual a verdadeira face de Maomé. Lembro o eventual leitor que a BBC já havia feito algo do género há dois ou três anos em relação ao verdadeiro viso de Cristo, com resultados surpreendentes. Por aquilo que os homens debuxaram, depreende-se que gostos não se discutem.
Uma das facções islamitas, mais existencialista, não gostou de ver uma representação mais pilosa de Maomé, com abundante barba e turbante em forma de bomba, alegando que o perfil baseado na extemporânea expressão pelas barbas do profeta “não representa uma interjeição conceptual transposta à realidade, será antes uma analogia à honradez própria do homem adulto, por imposição à irresponsabilidade do rapaz imberbe”; para mais que no tempo de Maomé não havia sido ainda descoberta a pólvora. Outra doutrina, a freudiana, discordou da coexistência entre o profeta com um cão, visto saber-se pelas passagens do Corão Apócrifo do Mar Morto que Maomé era alérgico a estes animais, rejeitando a tese de que o profeta tenha querido alguma vez entrar "em brincadeiras com o quadrúpede”.
Há aqui evidente confusão e estamos aqui para esclarecer a biografia deste importante personagem. Maomé era um homem magro, de compleição franzina mas de grande resistência, por ser corredor de grandes distâncias. De tez morena e barba fina, mas curta, tinha um metro e sessenta e oito e pesava cinquenta e nove quilos. Quem o quisesse encontrar, bastava procurá-lo entre Medina e Meca, localidades que balizavam o seu local de treino diário. Sujeito afável e simpático, era dado a crises de mau humor derivado da presença dos incómodos grãos de areia entre as sandálias e as solas dos pés. Perito em fugas para a frente, acabou a carreira como lebre em maratonas.
Existe, por isso, alguma confusão sempre que se quer perceber as grandes linhas dos países islâmicos. Outro exemplo capaz é aquele que envolve o Irão, que emprega moderna tecnologia na tentativa de exportar gasolina para a Dinamarca e a Noruega através de cocktails molotov lançados para dentro das suas embaixadas, já que ainda não existe um pipeline entre o Médio Oriente e a Jutlândia. E é com alguma preocupação que vejo alguns comentadores de política internacional (leia-se os costumeiros general Loureiro dos Santos e Nuno Rogeiro) a insistirem em ligar estes acontecimentos a um diferendo comercial que opõe o Irão à Noruega chamado “loiras por camelos”. A liberdade dá confusão.

C.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Paladino Não-Sei-Do-Quê

Sendo a minha individualidade uma figura de proa de uma certa sociedade dedicada à perspectivação conceptual, tenho sido frequentemente acossado pela problemática em torno da figura Paladino não-sei-do-quê. Como o nome indica, o Paladino não-sei-do-quê dedica-se à defesa intransigente de causas. Quais causas? Todas as causas. O Paladino não-sei-do-quê difere dos outros paladinos por ser aquele indivíduo que toma como sua a bandeira das causas díspares.
A imagem primeira que temos do Paladino é a do cavaleiro andante, um justiceiro nómada, iconograficamente representado por indivíduo a cavalo, amiúdamente ladeado ou secundado pelo seu escudeiro, já que não consegue apertar as fivelas do bacinete sozinho (um bacinete é armadura, só que em francês). O mais conhecido será o trinómio Quixote&Rocinante&Sancho Pança, ainda que muitos não concordem com o mau exemplo de um paladino com alucinações (o vinho da Mancha tem muito grau e a continuidade monótona daquela paisagem aconselha o belo trago com frequência).
O Paladino não-sei-do-quê é, antes de mais, um indivíduo com tendência à solidão e desempregado, porque para se abraçar a carreira de paladino de todas as causas é preciso ter imenso tempo livre. O difícil é discernir se o ócio concorre para o desenvolvimento da patologia e não o amor solidário que move esta classe, à semelhança da gorda maioria do advogados portugueses que, despretensiosamente e repudiando possíveis compensações financeiras, aceitam representar qualquer litigância desde que o combate esteja assegurado. Em relação directa, o Paladino não-sei-do-quê recebe com frequência o epíteto de advogado do diabo, apesar de representar os interesses da religião. Por isso, este Paladino é controverso.
Exemplo do Paladino não-sei-do-quê é o hacker sagaz e sabe onde se escondem todas as mensagens subliminares: a palavra Echelom suscita-lhe o sorriso malicioso do tipo cúmplice. Faz downloads 24h/dia e vende dvd’s piratas só para o imperialismo não lucrar com a globalização, porque tem consciência antiglobal. É teórico acérrimo da conspiração e como todos os teóricos conspiradores, é ambientalista. Defende a pés juntos que “Cavaco Silva foi assassinado por um insecto intergalático que depois vestiu a sua pele, à semelhança do sucedido no MIB-I. Daí o candidato de direita ter aquele viso inexpressivo de olhos encovados que quando é confrontado com questões onde se mencionam fugazmente as palavras Lopes, fricção política e Santana, se limita a escancarar a boca, como quem tem filamentos de presunto entre os dentes do siso”. Ao mesmo tempo denuncia que “Mário Soares assassinou um verme intergalático e vestiu-lhe a pele, daí apresentar uma derme constituída por uma sequência de ondulados à la michelin e responder sempre bah! quando o questionam sobre o seu terceiro lugar nas sondagens”.
Ao abraçar o cursus honorum de campeão de todas as causas, o Paladino não-sei-do-quê não só levantou o cu do ócio, mas tornou-se na massa de que nascem os diplomatas e os políticos, i.é, é uma soma de negativo e positivo, mais e menos, ac/dc, equilíbrio de forças desiquilibradas, simultaneamente Paulo e Miguel Portas, é Francisco e é Louçã. È inimigo do leão e amigo da onça. É e não é.
O costume levar-me-ia ao encerramento desta crónica com uma tirada pseudo-inteligente em que a partir da reflexão inicial era produzida uma jocosa e laboriosa construção semântica onde a significância extrapolaria o significado; mas tal não farei, porque apesar de tudo, o Paladino não-sei-do-quê tem de ter alguém que o defenda.
El C.

terça-feira, dezembro 27, 2005

A Sombra do Fotógrafo

Eu lembro-me bem dos medicamentos do antigamente. Medicamentos (agora, se calhar já não lhe chamarão isso, mas azar) que ainda hoje se vendem (e resultam) e que nos conduzem aos tempos áureos da publicidade na caixa. Um deles por exemplo, apresentava a posologia e a eficácia do produto na própria tampa. Tratava-se de um unguento anti-micótico (eu não recordo o nome), que dava para todos os males de pele, do herpes ao cieiro, e que era vendido dentro de umas caixinhas cor de pérola. E poderia desfiar aqui um rol de grandes clássicos farmacêuticos que nunca careceram de literatura médica, porque a embalagem dizia tudo. As pastilhas Valda, por exemplo: bastava abrir-se a caixinha com aquela folha de eucalipto na tampa e já se sabia que as pirâmides verdes cobertas a açúcar serviria para aliviar problemas respiratórios e da garganta. As pastilhas do Dr. Bayard, por seu turno, só a visão da imagem do senhor agasalhado e levemente encolhido com o punho em frente à boca já esclarecia que o mal dele era tosse, logo, é uma embalagem de rebuçados para a tosse. E a pasta medicinal Couto, cuja publicidade já foi feita, pasme-se, pelo Herman José quando era muito novinho? A expressão dentes brancos significava dentes brancos, mais nada. Nada de tártaros, nada de cáries e nada de gengivas. Aliás, no tempo da Pasta Medicinal Couto não haviam gengivas!
A modernidade castrou a familiaridade do medicamento; a embalagem hodierna apresenta no exterior um nome a acabar em ox ou em ina, em detrimento da marca antroponímica, mais pessoal, mais íntima, porque Couto é nome de gente, como é o é Bayard e o é Valda (as pastilhas foram inventadas pelo senhor Aparício da Silva Valda). Este é o preço a pagar pela tecnologia. Um dia acabará por perder-se todo o saber da farmácia tradicional.
E para quê a literatura médica? Porque raio se coloca uma folhinha dobrada seis vezes dentro de uma caixa de medicamentos com informação escrita em letras tão pequeninas que mais parece uma apólice de seguros? E porque é que se chama literatura médica a um mero pasquim que não tem enredo, apresenta sempre as mesmas personagens (a saber, adultos, crianças, mulheres grávidas ou em aleitação, médico e farmacêutico) e que ainda por cima já abre a porta a uma sequela, pois metade do folhetim faz alusão a possíveis efeitos secundários?

Em 1993 tive a oportunidade de visitar Marrakesh. Este acontecimento saldou-se numa das minhas mais preciosas memórias de viagem. Como a farmacopeia árabe é secularmente reconhecida, a visita a uma farmácia na capital do Atlas afigurou-se-me como uma oportunidade de visitar um reduto inalterado do saber medieval. A dita fazia-se anunciar não por um néon cruciforme de cor verde, antes por uma série de sacos com cheios de pequenas folhas verdes, cuja única função é servir de presente oferecido pelo rapaz na altura de pedir a mão da sua noiva em casamento aos pais da moça.
A farmácia é composta por duas divisões: a mais exígua é a que tem o balcão de atendimento, com as paredes cobertas de prateleiras repletas de boiões e jarros cheios de produtos de mil cores. Na outra divisão existe, para além de muitas mais prateleiras e boiões, uma mesa de trabalho no centro da qual estão depositados os peneiros, os almofarizes, os pilões e demais boiões que servem à preparação das mistelas curativas a partir da miríade de panaceias de origem vegetal e mineral existente nos contentores vítreos. Estes não possuem rótulos e que eu visse, nada de literatura médica. O farmacêutico sabe bem o que existe dentro e cada boião. Lá é tudo natural, tudo manual, tudo sem receitas, muito pessoal.
Na farmácia portuguesa já começam a despontar os serviços informáticos de selecção de medicamentos a partir de computadores e de braços robóticos, mas ainda se podem assistir a algumas pérolas manufactureiras com verdadeiros truques de prestidigitador e à margem da informatização/ mecanização. Só o farmacêutico sabe onde está aquele medicamento com nome esquisito. Pede-se zolvirax e ele, pimba, abre a segunda gaveta e tira de lá o coelho; nós pedimos triticum e eles abrem a terceira porta a contar da esquerda e com a mão enfiada na primeira prateleira ainda perguntam "mas quer o 300 ou o 600?".
Mas a peça de resistência é o golpe do farmacêutico. Caixa do medicamento na mão, x-acto na outra, aponta o x-acto ao papel e rec-rec-rec-rec, quatro golpes sem furar a caixa, destaca com a ponta da lâmina o código de barras e cola-o à receita com uma tirinha de fita-cola. O golpe do farmacêutico é como a sombra do fotógrafo. Sem este primor técnico, é como ele não estivesse lá.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

Abyssus Abyssum

Conheço um velho ditado que diz “o diabo fala todas as línguas”. Como a fiabilidade dos provérbios costuma ser de 99,97%, o que é que se passa com o demónio que nos filmes de exorcistas só fala em Latim? É por ser antigo? É para dar o cunho de alta cultura ao género? (Eu sei que dois dos meus três leitores vão dizer no seu tom apaneleirado “mas o diabo também fala americano”; pois fala, de contrário nenhum americano ia ver os filmes, porque eles não gostam das legendas). Preste-se atenção.
Os clássicos do exorcismo têm como personagens uma rapariga, um padre e, claro, o diabo. A história também é sempre a mesma: um padre é contactado pelo arciprestado para exorcizar uma jovem que apresenta comportamentos estranhos, como vomitar, querer foder com tudo o que mexe e falar línguas esquisitas. O padre ainda questiona se não será um caso de bulimia associado à natural descoberta da sexualidade adolescente, mas quando lhe dizem que ela fala latim, aí vai ele de Bíblia, estolas e água benta.
Já se perguntaram porque é que o diabo encarna sempre numa rapariga? Isto já vem da Idade Média, mas nada mais natural que um indivíduo querer-se meter dentro de uma jovem (o termo técnico é possuir). Além do mais que as raparigas são mais enfáticas na pornologia que normalmente acompanha a manifestação demoníaca. O palavrão sai da boca feminina com mais violência e dá mais força à história.
O padre constitui o elemento controverso da trama, já que se encontra em fase de teste da fé. O diabo encarregar-se-á de o tentar de diversas formas, mas lá para o fim destacar-se-á numa dissertação teológica com demónio, quando se apuravam as origens e razões da manifestação.
O diabo, por seu turno, é uma personagem algo esquizofrénica com a mania das grandezas, até pela plêiade de heterónimos que o costuma rodear. Ele é belzebu, demónio, rabudo, satã, satanás, mafarrico, demo, lúcifer, tinhoso, príncipe das trevas, burro preto e anticristo. Não se lhe costuma ver a aparência original, mas tudo depende do montante disponível na produção de efeitos especiais. Nos confrontos com o padre, trava-se de razões a partir da vitimização, pois foi Deus quem o traiu e “blábláblá que me explusou do Paraíso e-não-sei-que-mais”. Depois tem a tal coisada da língua. O filme Stigmata constitui uma rara excepção à generalidade do inglês/latim falado pelo rabudo, já que a jovem possuída escrevia em aramaico e depois falava em italiano (“Il mesangero non és importante”).
Se de alguma coisa serviria o género exorcista no cinema, já que o diabo fala todas as línguas, seria a promoção dos cerca de 5.000 idiomas e dialectos conhecidos no planeta, 96% dos quais se encontram à beira da extinção, como por exemplo o igbo, o inuktitut e o quirguiz. E se o mafarrico quer dar uma de Príncipe das Trevas aristocrata ao versar o latim, pelo menos que fale o latim antigo, para não cair no erro do Mel Gibson que empregou o latim restaurado n’ A Paixão de Cristo e pôs os soldados romanos a trocar os v’s pelos u’s.

Socorro-me aqui das palavras de Sto. Isidoro, quando aludia às origens das pestilências: “quando pro peccatis hominum plaga et correptio terris inicitur, tunc aliqua ex ausa, id est aut siccitatis aut caloris ui aut pluuiarum intemperantia, aera corrumpuntur. Sicque naturalis ordinis perturbata temperie, inficiuntur elementa, et fit corruptio aeris et aura pestilens” (De Rerum Natura, XXXIX, I) (Quando, devido aos pecados dos Homens, a fúria dos elementos se abate sobre a terra, seja pelos seguintes fenómenos, a seca, calor violento ou excesso de chuvas, a atmosfera corrompe-se e a natureza perturba-se no seu equilíbrio, produzindo-se a contaminação dos elementos, a corrupção do ar e criação da aura pestilencial). Nos dias de hoje, em que as secas, o calor extremo e as recentes chuvadas e nevões assolam a Europa, é de estranhar que estas e outras desgraças do mundo não sejam imputadas aos pecados dos Homens e à acção do Príncipe das Trevas.
E será certamente de natureza maligna a orquestração do pérfido decreto que ordena a retirada do Crucifixo das salas de aula e não se faça o mesmo com a Menorah, com o Corão e com o Buda, símbolos religiosos que teimam em enfeitar as paredes das escolas portuguesas. Foi para isto que se constitucionalizou a liberdade religiosa? Foi?
C.

Abyssus abyssum: atracção pelo abismo, o abismo atrai o abismo ou um mal nunca vem só.

quarta-feira, novembro 30, 2005

Disfunção Abstracta

Apanhei-me hoje a reflectir sobre as cenas lamentáveis perpetradas pela cáfila que integra a claque do Inter de Milão contra o jogador côte-ivoirense Zoro no fim-de-semana passado. É certo que o fenómeno das claques (vulgo hooliganismo) é um campo fertilíssimo para a abordagem sociológica nas suas múltiplas facetas, quer seja enquanto agremiação de pessoas unidas por uma mesma cor clubística ou pela comodidade do exercício da violência sem motivação aparente. A imagem das lágrimas de um homem ferido no seu orgulho ameaçando abandonar o quadrilátero ainda baila nos meus olhos.
Tenho algumas certezas e uma delas diz-me que a claque é, antes de mais, uma associação de indivíduos com grande propensão para o crime. Mas como reconhecer uma claque? Como discernir a mera associação ou colectividade do bando/ gang/ agremiação facínora mascarado debaixo da cortina do futebol ou outro evento desportivo de massas? Por ser tarefa difícil e porque anda por aí muito crime organizado, esbocei uma chave dicotómica associativa para que não se faça a confusão.

1. O agrupamento costuma cantar em grupo.
a) Sabe mais de uma música. Se não, você está perante um pelotão de fuzileiros.
b) Sabe mais de catorze músicas. Se não, é uma tuna.
c) Reúne-se pelo menos uma vez por semana. Se a reunião é aos domingos, trata-se de um grupo coral.

2. O agrupamento apresenta vestuário homogéneo.
a) Parecem todos idiotas. Se parecem meninos idiotas, são escuteiros.
b) Vestem trajes coloridos. Se são muito coloridos, são travesties.
c) Os elementos usam cachecóis coloridos. É a campanha do PSD das Legislativas 2005.

3. O agrupamento entrou numa estação de serviço.
a) Todos os elementos correm para os WC’S. É uma excursão de velhinhas a Fátima.
b) Os elementos montam as mesas e desatam a comer. É um grupo de ciganos a caminho de um casamento.
c) Todos os elementos entram rapidamente na loja e estacam na parte das revistas. É um congresso de tunning.

4. Quando bafejado, o agrupamento emite odor.
a) Quando bafejado, cheira a barro. É o Rancho Folclórico de S. Pedro da Cova.
b) Quando bafejado, cheira a mofo. São os deputados da Assembleia da República.
c) Quando bafejado, cheira a ganza. É uma claque.

Ora pois bem, como é que as claques surgiram? Antes do mais, a pergunta é pertinente. O seu aparecimento, está ligado ao aparecimento do fenómeno de massas. Com o final da Segunda Guerra Mundial, a turba que fazia um apoio organizado aos clubes viu-se necessitada de alguém que pudesse alugar os autocarros e gerir as excursões. Daí a aparecerem as claques foi um tirinho. Os outros clubes, com a inveja, resolveram patrocinar as suas próprias claques, tendo-se dessa forma generalizado o fenómeno.
Há quem diga que as claques são o sustentáculo do desporto moderno. Que sem as claques os estádios estavam vazios. Eu acho que é ao contrário, sem as claques, os estádios estariam cheios. Muitos já apontaram o mal, mas ninguém quer excisar o tumor.
Um dos segredos da sobrevivência das claques está ligada à sua pseudo-militarização: a homogeneidade do fardamento; a grande resistência aos agentes climatéricos ao melhor estilo de chuva civil não molha militar, sendo frequente ver os seus constituintes nas bancadas em tronco nu à chuva e ao frio; a sistematização do exercício físico nos ginásios que lhes servem de campos de treino. A claque tornou-se até, em muitos casos, nas forças de segurança dos clubes. É comum ouvir falar de uma certa guarda pretoriana de um determinado presidente; e quando se está debaixo uma corrente de maus resultados, são a brigada de intervenção rápida na imposição da ordem acelerando a chicotada psicológica.
Recebi com natural apreensão a notícia de que a grelha da TV Cabo vai incluir um canal destinado aos bebés dos 0 aos 3 anos. Para além da mítica série Teletubies, um dos mais elaborados produtos televisivos com a capacidade de transformar o cérebro humano em merda, já estou a ver a coerência qualitativa dos programas ali expostos. A ideia é fornecer formação complementar das criancinhas no sentido de as tornar mais inteligentes. Ou por outras palavras, é um canal que permitirá aos papás terem mais tempo para si e só têm de sentar os putos em frente à ama luminosa.
Se não sabem, ficam a saber: a exposição continuada dos infantis aos televisores é muito, mas muito prejudicial. Os problemas mais graves surgem da disfunção abstracta, como são a dislexia e a discalculia, respectivamente, a dificuldade na articulação verbal e a dificuldade no cálculo matemático simples. Entre alguns dos sintomas contam-se escrever as palavras com erros ortográficos ou desacerto da colocação das vogais, a tendência para a não conclusão das palavras ou das frases e a utilização dos acrónimos. Por outras palavras, as criancinhas que desde o berço levem com o afecto televisivo terão um forte propensão em escrever N’s ao contrário, ou até não conseguir escrever de forma completa Juventude Leonina, ou escrever apenas SD. E já estou a ver a conversa entre dois jovens com discalcolia daqui a uns 20 anos:
Jovem 1: Méne, ontem mandei duas bolas de golfe à mona do láiner na primeira parte, e na segunda atirei mais quatro.
Jovem 2: E quantas atiraste ao todo?
Jovem 1: P’raí umas dez ou doze.

Após este exemplo enfático, só me resta dizer que o BabyTV será patrocinado pela Betandwin.
C.

segunda-feira, novembro 21, 2005

Requiem Sem Dó Maior

Mas o que é que é isto de os humoristas portugueses quererem associar os momentos de intimidade (principalmente alusões à sedução ou até aos preliminares) às músicas do Barry White? É que lhe dão sempre com o Barry White! OK, a música presta-se a isso, mas nós também temos gajos com timbre ultra baixo em Portugal, olha, o Olavo Bilac, por exemplo (mesmo tom de voz e de pele). No outro dia era O Homem da Conspiração a ensinar o que fazer para convencer a tipa a abrir as pernas e BOING!, música do B.W. Há três dias foi no Contra Informação, onde um dos candidatos presidenciais lá metia um CD do B.W ao barulho aludindo à pré-cópula.
Eu não tenho andado a dar ao stick noutro planeta e sei que existe mais música dita sexy (é que nem se coloca a hipótese de eles andarem a ironizar com o homem). Os humoristas portugueses não perceberam que os humoristas americanos aludem ao Barry White por não reconhecerem qualidade sentimental às gaitadas do Kenny J, ou o estilo azeiteiro do Michael Bolton, pela mesma razão de eu não apreciar (é mais nem sequer admitir) música da Fafá de Belém ou do José Malhoa nos momentos alcovíticos. Por isso o Barry White é uma chavão americano para bandas sonoras da queca (eu até gosto do Lets Get It On).
Esmiucemos. Os programas acima referidos são duas criações conotadas com as Produções Fictícias, logo tem um selo de altíssima qualidade, por isso não é compreensível que haja sempre a referência ao B.W. É que o humor americano acaba por ser fácil de se fazer, se pensarmos que ironizar com uma sociedade daquelas só encontra obstáculos no “por onde é que eu vou pegar”. Começam-se a sentir os efeitos da criação circular que deriva da profunda dependência dos jovens portugueses para com a cultura americana, desde as calças de ganga, discos de carne picada grelhados e metidos em metades de pão (não conheço a palavra portuguesa para hambúrguer) e sim, na cultura comediante.
Há uma estreita relação entre as duas culturas, presente na opulência da oferta ao nível político. À semelhança dos EUA, existe em Portugal um grande incremento das más governações à produção comediante: a aparição de um ror de artistas nos últimos tempos é coincidente com o período que em História é conhecido por SLG/ PGD/QQSAF (Segunda Legislatura de Guterres/ Pseudo-Governo de Durão/ e o Que é Que o Santana Andou Mesmo a Fazer?).
Esta é uma das trombetas que anunciam o fim da comédia em português. Gil Vicente, Bocage, Eça de Queirós, Almada Negreiros, Vasco Santana, António Silva e Raul Solnado faziam comédia portuguesa e em português com temas portugueses. E sempre com elevadíssimo nível de qualidade. A cíclica ingestão governativa em Portugal provocou nos criadores de comédia o fenómeno da catadupa e muitos entraram em bloqueio criativo pelo manancial de temas que tem à disposição para abordar, à semelhança do que havia acontecido com os nossos hermanos americanos. Depois, foi fácil passar do bloqueio à perda da qualidade.
A face visível a olho nu e do espaço desta problemática é Herman José. É indiscutível que foi o melhor dos melhores: o Tal Canal, o Casino Royal, o Boião da Cultura, Herman Enciclopédia, enfim, até a Roda da Sorte; tudo pérolas de um humor 50% Benny Hill/ 50% Monty Python. Foi censurado por diversas vezes na televisão pública, mas passou à privada para apresentar (ou imitar muito mal o Tonight Show?) um programa de nudez parcial que vive à custa de um penteado loiro, de músicas populares alemãs, de um conjunto de actores cuja chama começa a apagar e do circo de monstros que ele lançou (Linda Reis, Alexandrino, etc).
Não obstante, surgiram alguns criadores que vão dando alegria à comédia, caso do Tochas, da tropa que andou muito no Levanta-te e Ri (um programa que tem um cabeça de cartaz que não chega à terra das unhas dos outros) e a equipa que produz para a Sic Radical, como o Balas e Bolinhos I & II, Ninja das Caldas e Produções Megera. Mas até isso está a mudar. Digite as palavras gatofedorento.blogspot.com na barra aí por cima e veja no que se tornaram os textos da melhor comédia: “Hoje, vai para o ar o oitavo episódio do Gato Fedorento com os sketches: "Agente faz pouco de condutor", "O Duelo", "Não faça trocadilhos com a minha profissão", "Estenógrafo apaixonado por teatro de revista", "Ninguém lamenta mais do que eu" e "Homem na bagageira"”. Pelo menos o Herman José ainda demorou vinte e cinco anos a acomodar-se.
Por isso as referências musicais na comédia deverão ser revistas, excluindo-se os romantismos em detrimento da música fúnebre com cavalos enfeitados com plumas negras a abrir o cortejo, de modo a impedir-se que a população portuguesa procrie e assista ao declínio precoce da sua juventude. Pode ser um Requiem, mas sem dó maior.
C.

quarta-feira, novembro 16, 2005

Memória Ferroviária

O Comboio é um meio de transporte que encerra um mundo misterioso e grandemente apelativo ao sonho, ímpar no panorama dos transportes terrestres por esse mundo fora. O mundo da ferrovia é único. Quando comparados com ele, os outros meios de transporte ficam aquém da qualidade das memórias e confortos providos pelas composições que diariamente cruzam as estações, sendo certo e sabido que entrar num comboio é penetrar num espaço museológico onde se pode desfrutar da paisagem.
Uns dizem-me: “Ah, o autocarro também dá para ver a paisagem…”, está bem, mas e o passado? O autocarro não tem passado, é uma invenção recente e só existe porque o comboio não chega lá! Ainda para mais o autocarro é claustrofóbico, tem os assentos apertados e não dá para andar de um lado para o outro sem que o passageiro do lado nos enfie um soco nas goelas. E o motorista, ali à vista, a mirar o passageiro pelos seus três espelhos interiores? No comboio existe liberdade de movimentos e liberdade psicológica; no comboio não há condutores mirones!
O táxi assemelha-se ao o autocarro, mas possui uma vantagem: dá para sair quando quisermos. Não permite, contudo, o convívio de longo curso, já que ao quilómetro 2 da bandeirada fartamo-nos da conversa intrusiva do taxista, com as suas alusões à meteorologia, à política e ao pontapé. Ao contrário, no comboio as pessoas metem-se connosco só a partir de determinada quilometragem, após terem asseverado que não constituímos uma ameaça, no sentido de que só é ameaçador quem falar mais do que elas. E só quando não há mais nada para ler.
O comboio é uma instituição memorável. Onde é que é possível encontrar histórias como a daquele senhor que, depois de procurar lugar em todos as composições lá avistou uma vaga ao lado de uma senhora; quando ele se aproximou do lugar e começou o movimento para se anichar, a senhora disse “não”, ao que ele inquiriu “pagou dois bilhetes, minha senhora?”, ao mesmo tempo que se sentava em cima de uma saca com duas dúzias de ovos. E uma viagem entre o Porto e Coimbra que durou onze horas (+ sete que o habitual) em que até deu para um grande campeonato de sueca? Que lembranças!
E as proezas que no comboio tiveram o seu palco? Onde é que o Steven Segal limpou o sebo aos terroristas que tinham dominado o mortífero satélite no Forças em Alerta 2? E se o Crime do Expresso do Oriente se chamasse Crime no Táxi do Oriente? E se a música Take The A-Train do Duke não tivesse o Train? E Os Cinco e o Comboio Fantasma? E o Homem que via Passar os Comboios? E o Trainspotting? E os desastres ferroviários, o Pendular, etc, etc, etc. O comboio é essencial.
Ao nível cinematográfico, é certo que o Metro aparenta aproximações e já foi cenário de algumas aventuras, mas não é a mesma coisa; o metropolitano é rápido e asséptico como o sexo com uma tia da linha, não nos deixa a cheirar a gasóleo e meio penhagentos como as putas espanholas. Querem trocar dois séculos e meio de crude por meio século de lixívia (no Porto é mais ano e meio...)? Não, não queremos. O comboio é para os aventureiros e para os festivaleiros. Como é que se chega a Caminha? Por acaso nos autocarros da Turilis dá para fumar ganja? E alguém já fez interrail dentro de um táxi? Quem no seu perfeito juízo se imaginou a repudiar em pequenino os comboios e todo o seu aparato de estações, túneis, montanhas e carris, preferindo antes brincar com miniaturas de táxis pretos com tejadilho verde e autocarros pequeninos de dois andares? Digam lá!
Fiquem sabendo que alguns sociólogos defendem que o comboio é o símbolo da sexualidade na Revolução Industrial (daí a expressão “deixa-me meter-te o comboio no túnel”).
O mundo ferroviário é mágico, é especial, está-nos no sangue. Mas a magia do mundo ferroviário dever-se-á procurar também na sua analogia ao futebol. Para além da coincidência de actuar dentro de linhas e de haver jogadores que partilham a sua omnoástica, como o colombiano “El Tren” Valência e o francês Desaillis, “a Locomotiva” (talvez por ser da cor delas), o que dizer dos Chefes de Estação, com a sua bandeirinha e apito, afinal uma mistura de fiscal de linha com árbitro?
Ah, meus irmãos, é por esta e por outras que o TGV nunca será credor da minha paixão.
N-U-N-C-A.
C.

terça-feira, novembro 15, 2005

O Crítico

Uma das profissões que em Portugal mais tem cavado o fosso do reconhecimento, a par do Ocultismo e da Criação de Avestruzes, é o de Crítico. Esta profissão desenvolveu-se particularmente a partir do 25 de Abril e mais ainda desde que o Miguel Sousa Tavares aprendeu a falar. Apesar de parecê-lo, eu não sou um crítico, porque é-se Crítico a tempo inteiro; pelo contrário, edito este blog de reflexão nos meus (poucos) tempos livres (assim dou uma machadada nos detractores do trabalho intelectual), porque dirijo, na vida real, um pequeno circo de átomos. Mas muitos críticos assinam sob outras profissões, e hão-os jornalistas, professores de psicologia, advogados, gestores de pequenas empresas e críticos de televisão e de cinema.
Há que conceder que para ser-se Crítico é necessário ter-se uma coragem acima da média para reflectir sobre a plêiade de assuntos que ele aborda nos seus espaços de opinião (daquela coragem que é quase estupidez, mas não é bem: só com o criticismo frenético se chegará a esse nível). O Crítico tem de saber um pouco de tudo: tem de ser uma espécie de engenheiro-médico-filósofo. Só assim se poderá transformar num oppinion-maker, o Son Goku dos críticos.
Ao contrário das outras profissões, o Crítico não possui uma linguagem técnica, porque não existe a gíria da crítica. Mas por ser aproximado à Filosofia aplica mas não domina termos da gíria filosófica como dogmatismo, heterodoxia, hegeliano, ápodo, silogismo e paradigma. A informação que ele veicula carece muitas vezes de forma e sintaxe e é possível muitas vezes admirar verdadeiros prodígios literários como “dogmatismo heterodoxo” (isto é um oximoro).
A grande batalha do Crítico é alcançar um espaço próprio, como as folhas de um qualquer diário capaz de aglutinar o seu ensaio semanal, ou num programa de televisão de audiência escassa feito para ocupar o espaço entre as publicidades. É aqui que ele vai exercer a sua condição maior, o ser do contra. O Crítico é contra tudo e todos e até contra si: é vulgar ouvir-se o “contra mim, falo” (traduzido do vernáculo “contra mim, caralho”).
Reveste-se assim de grande actualidade o imortal Manifesto Anti-Dantas e por extenso, de José de Almada Negreiros, Poeta de Orfeu, Futurista e Tudo: “O Dantas nasceu para provar que nem todos os que escrevem sabem escrever. O Dantas é um autómato que deita para fora o que a gente já sabe o que vai sair. Mas é preciso deitar dinheiro”.
Concluindo, o Crítico é como os cães: para além de não conhecer o dono, alimenta-se alarvemente de toda a informação à disposição, misturando-a e quando a emanar rectalmente ela não servirá para nada, apenas para sujar as ruas e os nossos sapatos. Por isso vamos todos pegar num saquinho e, depois de o apanhar cuidadosamente por mor de não borrar os dedos, atiraremos o dejecto para um caixote do lixo a bem da saúde pública. Bem hajam.
E agora, meus senhores, é tempo de eu voltar ao trabalho e tentar que os átomos de meu circo produzam alguma molécula.

C.

segunda-feira, novembro 07, 2005

Ensaio sobre a Surdez

Estou sentado numa mesa de café. À minha volta há outras mesas mas só uma delas tem um habitante que folheia o Notícias; sentados nos bancos altos do balcão estão cinco homens, à sua frente garrafas de cerveja e as tradicionais moscas; do lado de lá o dono do café lava copos na torneira. Por trás dele as prateleiras com garrafas impregnadas de sebo, como chouriços preparados para a cura pelo fumo. Eu estou a tentar ler o meu jornal mas um barulho perturba-me, como se o som que vem do aparelho televisor adensasse um misterioso nevoeiro sobre as letras negras do maço de folhas que eu a custo ia tentando compor em margens sobrepostas. Como não me consigo concentrar, vou dando miradas à minha volta, a avaliar o recheio social do estabelecimento.
Um dos homens tem um tique esquisito no ombro, outro fala muito alto e gargalha com o tasqueiro sobre as incidências futebolísticas da semana, um terceiro tem o cabelo à jogador da bola anos 80, curto em cima mas comprido e a cair em cachos para os ombros, os outros dois são mais velhos e com cara de poucos amigos. Exceptuando o que está a falar com o tasqueiro, todos os outros estão a olhar para a TV que parece estar a debitar ainda mais alto.
Volto a olhar para o jornal e folheio só para apanhar os títulos: Tumultos em Paris, 27 mil carros queimados só este ano; «espectáculo», pensei, «era decretar a lei marcial e disparar à vista que aquilo acabava num instantinho»; Na Finlândia é possivel aceder à declaração de rendimentos do vizinho por sms, «olha que em Portugal esta merda era capaz de dar resultado … sempre ficava a saber o que é que faz o meu vizinho para ter um Mercedes e um Audi A4 Sportwagon … ou a mulher dele»; A empresa que produz o medicamento EPO vai patrocinar a Volta à Califórnia em Bicicleta «O quê? Mas afinal faz sentido, porque a Amgen só está a investir nos maior mercado da EPO»; Morreu a fundadora da revista Burda «Com 96 anos!?! De onde se prova que a foleirice dá longevidade. AHAHAHAH».
A televisão está agora mais alto. Como estou de costas não sei do que se trata, mas toda a gente está em silêncio e a seguir atentamente o conteúdo do programa. «Que programa é este que tem estes marmanjões presos ao ecrã?» interrogo-me.«Já começou o telejornal?» Volto-me e descubro que estava enganado; a fina flôr do machismo nacional está rendido aos Morangos com Açúcar.
Queixem-se que o país não vai p'ra frente, vá lá.
C.

sexta-feira, novembro 04, 2005

Em Torno de Asterix L Goulês

Sendo este um espaço com predilecção pela literatura e atento ao maná editorial, foi com uma agradável surpresa e natural satisfação que assistimos ao lançamento de uma aventura de Astérix na outra língua oficial portuguesa, o mirandês, o nosso basco. Primeiramente tem de se dizer bem da tradução. Acabou-se a malapata da interpretação livre que certos tradutores vinham protelando (basta o exemplo de Die Hard = Assalto ao Arranha Céus/ Die Hard II = Assalto ao Aeroporto*), daí que Astérix, le Gaulois em mirandês é Astérix L Goulês (e não "L Ome qui bibia nel sítio c’agora tus padres bulem").
Mas esta edição não foi perfeita, por isso tenho de dizer mal de uma coisinha de nada. Como o centro do país é a nossa capital e como tudo o que se produz em Portugal tem de passar por Lisboa, mesmo não lhe dizendo respeito e lá não se produza nada, lá tivemos que gramar com o lançamento na capital. Uma primeira edição de 3.000 exemplares esgotou-se em minutos; a Mirandela e às escolas mirandelenses só chegaram fotocópias do livro.
De onde se descobre que há em Portugal uma cambada de néscios prenhes da imbecil boçalidade que medra nas margens do Mar da Palha, que não satisfeitos de não saberem falar português, insistem em comprar um livro traduzido numa língua que não entenderão, porque o mirandês é como o basco, vive dos sons bravos, das palatizações, ao passo que o lisboeta é tragicamente expirado transformando Filipes em Felipes e as vassouras em vassôras. Estou certo que este álbum, depois de folheado entre um pires de pipis e uma ginginha será arrumado sem delongas mais que o tempo de um arroto na estante, onde afinal jazem funerariamente os vinte e oito volumes da Enciclopédia Luso-Brasileira, a obra completa do Prémio Nobel Saramago ainda no plástico e um exemplar lido do Código Da Vinci.
E depois admiram-se que o PIDDAC para 2006 tenha mais uma vez uma distribuição democrática em que a região de Lisboa/Vale do Tejo leva 70% do guito; mas descanse-se que à Província caberão as fotocópias.
C.
PS: Este post esteve para se chamar Duas Reflexões em Torno da Arte de Mamar.

*chamo especial atenção para a semântica da palavra inglesa II

sábado, outubro 22, 2005

HARRY, potter que te pariu

Meu caro amiginho,
Eu sei que estás a passar por uma fase complexa da tua vida, afinal não é fácil ser-se adolescente nos dias que correm. Mas tenho notado que andas meio perdido e como tenho algumas responsabilidades pedagógicas com a juventude, custa-me ver-te a cair na degradação, ainda por cima quando isso acontece em locais como o Panteão Nacional e no Carmo. É que os jovens prodígios tendem em ser mal orientados e depois deixam de ser jovens e de ser prodígios. E está na altura de cortar com essas pieguices, porque assim não vais lá. E para britânicos em crise de adolescência já nos chegou bem o Adrian Mole. Vou-te dar um ou dois conselhos para melhorares a tua imagem.
Primeiro. Deixa Hoggwarts já! Isso é uma escola dos betinhos, é a Eton dos bruxos. Deverias ser mais trash na tua educação, pá. De outra maneira só terás tendência para as camisolinhas de malha a duas cores, o encantamento de vasinhos de flores e ser uma espécie de fada do lar com varinhas mágicas e poções (vê os filmes do Dirty Harry e diz-me se não dá mais resultado ser meio gringo com uma Magnum 45 nas unhas em vez de um betinho com uma varinha). Aos mágicos de hoje são pedido coisas grandes, como atravessar a Grande Muralha, fazer desaparecer aviões, rematar em trivela e esconder os números do défice. Tens de te modernizar, meu. Pensa bem: nos tempos actuais, em que há computadores e metro no Porto, tu perdes tempo a aprender coisadas em latim e a transformar pessoas em sapos? Eles deveriam ensinar-te a esgalhar chaves do Euromilhões. Isso, sim, era magia!
Segundo. Mudar de visual. O teu cabelo tem o potencial do Beckam, mas insistes em tratá-lo como se quisesses tornar-se num decadente com uma trunfa à Nuno Rogeiro. E muda de meio de transporte que as vassouras já não se usam. Compra um aspirador, a scooter dos ilusionistas!
Terceiro. Gajas! Eu reparei que tu desperdiças umas babas para cima da Hermione (e fazes bem, porque ela vai dar cá uma bomba), mas tens de ser mais insinuante. Quando é que te resolves a dar umas trincas na tua coleguinha, hã? Ou não me digas que tu estás mais virado para o Ron? (Esquece, ainda és muito novo para isso). Encostas a rapariga a um canto e sacas-lhe uns chochos; daqui a dois ou três anos (se fosse a sério seria daqui a dois ou três dias) já lhe saltavas ao poleiro!
Harry, Harry: a culpa não é tua; afinal, percebe-se agora que padeces do que a nossa juventude portuguesa: a falta de uma educação realista de alto nível e de progenitores que os orientem na idade do armário. E parece-me que a tua criadora, apesar do ziliões que já lhe deste a ganhar, não se preocupa muito com isso, não é? Olha, amigo Harry, potter que te pariu!
C.

segunda-feira, outubro 17, 2005

Da Gripe e das Aves

Toda a gente me questiona: não se estará a exagerar a “gripe das aves”? Só porque a passarada molhou os pés e anda por aí a cair como tordos por causa de uma constipação, será razão suficiente para os Telejornais não se calarem com as pandemias, os milhares de mortos e desalojados?
Isto, meus amigos, são manobras do lobbie dos criadores de rebentos de soja para lançar a confusão e acabar de vez com a credibilidade da indústria do frango. O guarda-redes do Sporting e criador de aves em cativeiro Ricardo, já fez saber no seu site frangos.na.net “não pode um futebolista fazer um investimento para o futuro, acautelando-se o desgaste rápido provocado pela profissão, que vem logo os ticoons da soja tentar suprimir o negócio na carne avícola. É que não chegava a cena dos nitrofuranos”). Mas a ser verdade, a situação é alarmante e preocupa-me a veleidade com que se está a encarar esta situação.
Vejamos as FAQ (frequently asqued questions) no meu email:
1º Dr. Croius, toda a gente fala da “gripe das aves”, mas existem certezas? DJ-Ovar
A gripe é um estado gripal despoletado na rápida oscilação térmica do organismo, geralmente após o resfriado. Ora, a passarada anda por aí ao tempo, sem agasalhos mais que uma camada de penas, apanha muito sol na cabeça e depois correntes de ar.
2º Caro Dr.: não será antes um caso de herpes labial das aves? AMFM-Trancoso
O herpes labial aparece geralmente nas galinhas, pois é um bicho que come tudo o que lhe aparece à frente, desde pedrinhas até às minhocas. Com bicos destes, é fácil apanhar doenças.
3º Ó Dr. Croius, o que são os bicos de papagaio das aves? BTT-Bragança
Os bicos de papagaio são problemas de ossificação anormal na coluna vertebral. Quem mais sofre com os bicos de papagaio das aves são, como o nome diz, os galos. É só ver a forma estranha como eles se movimentam. Se não são bicos de papagaio ...
4º E o pé-de-atleta em pés de pato? DZRT-Sintra
Esta doença é frequente no bodyboarder, que não é bem uma ave; se fosse ave era do tipo pavão, por razões de coloração e de pilosidade óbvias. E se tem pé de atleta e empresta os pés de pato, é do tipo pavão-porco.
Como se pode verificar por esta rápida análise, trata-se efectivamente da gripe das aves. E como à partida é contagioso temos de ter cautelas. Um dos meus colaboradores contou-me que a União Europeia preparou um pacote de medidas de prevenção para fazer face ao avanço da pandemia. Uma das mediadas é a introdução da Licenciatura em Aviceptologia* nas principais universidades do Velho Continente, de modo a prevenir-se a multiplicação dos focos de contágio. Esta nova saída profissional, que em Portugal terá bastante procura, até pelos incentivos concedidos pelo Governo de Sócrates aos jovens licenciados desempregados que poderão frequentar o curso em regime de pós-graduação, canalizará grande parte da nossa população activa para o combate à “gripe das aves”. Se o espectro do desemprego deixará de pesar sobre milhares, também é certo que os exporá ao contágio, o que poderá representar um sério revés para o futuro técnico e científico de Portugal e da Europa. Deve ser isto o choque tecnológico. Parece que foi posta de parte a medida preconizada pelo ex-director do Expresso, o Sr. Saraiva, agora EUSA4TKE (Europeen Union Senior Advisor 4 This Kind of Emergencies) de pulverizar a Sibéria com Cortigripe misturado com Aspirina C.
Mas o problema maior poderá incidir na sociedade civil. Todos sabemos que a caça (cinegética enquanto ócio) é o refúgio da genuína virilidade (ultimate-macho-man, em americano); como é que esta importante minoria étnica se vai comportar quando se começar a entender que o grupo de homens que anda pelos montes de arma na mão é um dos grupos de risco para incubação=transmissão de uma doença que pouco se conhece e cujo estafermococus mais conhecido se chama H5:M1? Porque me lembro perfeitamente de ter morrido o António Variações que era cabeleireiro e na altura também havia aparecido um certo HIV que provocava uma doença fatal de transmissão duvidosa, em que os cabeleireiros eram um dos grupos de risco.
Meus amigos, se por um lado se percebe que a História se repete ou, como se diz entre o povo, a vida dá voltas e mais voltas, por outro, a existência desta nova doença faz com que a falocracia se depare pela primeira vez com a irreversível espiral do extermínio. A espécie humana poderá estar à beira do FIM.

* Diccionário do Dr. Croius: Aviceptologia, s. f - é a arte de apanhar aves com laços e armadilhas.

segunda-feira, outubro 10, 2005

Rerum Politicae II - Ab Scrutinium

O Homem é um Animal Político
Rosseau

Rui Rio é uma Besta Política
Anónimo SD Cerco

Perante as recentes eleições realizadas em Portugal, penso que a partir de agora os escrutínios deveriam ser efectuadas através do método do “braço no ar”. Este método ancestral de escrutínio consiste na erecção de um dos membros superiores quando em concordância com a questão colocada. Por oposição ao voto secreto, este é o voto desvelado. Após apurado estudo, julgo ter sintetizado os principais problemas do sistema eleitoral português e seus sucedâneos, a saber, falta de dignidade do processo de escrutínio, desmotivação dos cidadãos para a política e consequente alta taxa de abstenção. O Sistema Braço No Ar (SBNA) representa a solução perfeita para estes problemas.
O actual processo de escrutínio é deselegante. Atente-se à figurinha usada em Portugal para o cidadão poder exercer o seu dever cívico: depois de recenseado, tem de levar com duas semanas de campanha; no dia da eleição aguarda na fila em frente da urna de voto até chegar a sua vez para, à socapa e a coberto de um nicho, inscrever uma cruz numa quadrícula de um papelinho, para depois o inserir dobrado em quatro numa ranhura; no final do dia, os camelos que perderam um Domingo perfeitamente saudável atrás da caixa negra ou a fazer a cacicagem da caça ao voto à boca da urna contam os papelinhos e pronto, já está. Nada mais económico e confortável. Mas isto não é nada. Não é assim que se mobilizam os portugueses para a Política.
O SBNA traria ao processo eleitoral uma clara poupança de tempo e dinheiro, para além de garantir a adesão do cidadão à Política e às votações. É que o SBNA apela aquilo que é mais primitivo no Homo Politicum: a inveja. Passo a explicar.
Este sistema só poderia funcionar com recurso à concentração dos cidadãos recenseados em determinado local amplo, nunca segundo o processo de inquirição pessoal. Nem tão somente existiria compatibilidade com a egoísta real gana do cidadão em comparecer junto às urnas de voto à hora que lhe apetecesse. O presidente da secção de voto determinaria um local e uma hora onde os recenseados se reuniam; após uma necessária confirmação de aptidão para o voto por parte dos eleitores, apresentavam-se os candidatos. Era nesta altura, e só aqui, que se apresentavam os respectivos programas, isto é, que o eleitor tomava contacto com a campanha. O dinheiro que se poupava em cartazes e autocolantes. De seguida o presidente da mesa nomearia os candidatos e os cidadãos levantavam o braço mediante a sua preferência. Deste modo não haveria espaço para “eu nunca prometi isso”, nem o típico “faço, desfaço e aconteço”, porque a turba tem a memória longa. Era o início da reabilitação do Político. Assim, neste sistema as pessoas iam votar por duas razões: 1ª para ver se os vizinhos iam votar e em quem e para os vizinhos os verem a votar, o clássico ver e ser visto; 2º no caso do vizinho se candidatar, ter oportunidade de se candidatar também. A participação e abstenção estariam desta forma comprometidas, visto que o português anda sempre a controlar o vizinho.
É certo que este método acarretaria algumas desvantagens que, bem entendido, se traduziriam maioritariamente em problemas do foro logístico. Mas nada de grave. Pode-se dizer que um dos principais inconvenientes seria do foro psicológico, pois o cidadão ver-se-ia confrontado com a dramática tomada de decisão/ acção aos olhos dos outros, mas acabaria-se de vez com a frase muitas vezes ouvida “eu não votei nesses gajos” nem com a famigerada "se ninguém votou neles, como é que eles ganharam as eleições?". A questão dos espaços e das horas de reunião também poderiam ser problemáticas e gerar a abstenção, mas se ao mesmo tempo da votação se programasse uma sardinhada regada a vinhaça (sumos e fêveras para quem não gostar), a abstenção seria automaticamente suprimida. E se a eleição estivesse prevista para o Verão? Fazia-se na praia! E se estivesse a chover? Fazia-se nos Estádios do Euro; seria a melhor forma de reabilitar a torpe relação entre a Política e o Futebol!
Estou em crer que a generalização do Sistema Braço No Ar (SBNA) garantiria a resolução destes graves problemas que infectam a vida política e, portanto, os políticos portugueses. A Política em Portugal está descredibilizada por falta de erecção. E lá diz o anúncio “Sabia que um Homem demora em média 4 anos a admitir sofrer de disfunção sexual?”. Olha que ele há coisas ...
C.

sexta-feira, outubro 07, 2005

Decálogo Para Uma Candidatura Presidencial

Porque a Presidência da República é a única instituição política portuguesa que deriva da perfeita Democracia, isto é, parte do sufrágio directo e não de merdices representativas, e porque é livre a qualquer cidadão com mais de 35 anos desvinculado de qualquer partido político, aí vão alguns dos requisitos necessários ou se calhar as dez (daí decálogo) condições necessárias (mínimo de três) aos que almejam cama e pequeno almoço no Palácio de Belém durante os próximos 5 (ou quem sabe 10) anos.

1º Ser vocalista dos Ena Pá 2000 ou dos Irmãos Catita e levar as assinaturas em cima de um burro.

2º Ser de esquerda e não gramar o Mário Soares.

3º Ser canhoto e não gramar os dextros.

4º Ter mais de 80 anos e não saber o que fazer para ocupar o tempo.

5º Ser ambidextro.

6º Ser ex-ministro da defesa, neto do Sacadura Cabral e não gramar o Cavaco Silva.

7º Ter no curriculum as palavras Resistência+Argélia+ Nambuangongo+Poema para Figo.

8º Pertencer a um partido que tem Esquerda na denominação e ir a votos só porque o dirigente do partido rival também vai.

9º Pertencer ao MRPP (Partido das Bombas, como diz o meu pai), ser advogado e ter um corte de cabelo fora de moda desde 1932 (atenção Sr. José Manuel Durão Barroso, o senhor já preside à Comissão Europeia e já não faz parte do MRPP, por isso tire o cavalinho da chuva).
10º Ter sido 1º Ministro Português entre 1975 e 1995 e andar mortinho por aparecer, apesar de ser um tabú.


Se achas que tens a 4ª Classe (a antiga) e desejas servir a tua Pátria, concorre já! A República precisa de ti! C.


Comunicado em Rodapé
A redacção do weblog Salmoura, por intermédio do seu Provedor do Leitor, vem por este meio esclarecer que a palavra Bomba foi colocada no texto segundo uma lógica de sarcasmo para com um partido político português e não de ofensa ou ameaça para os EUA. Acrescente-se para melhor entendimento que onde se lê MRPP dever-se-á ler Movimento Revolucionário "o Pum Pum". Portanto, sr.s da CIA, vão-se nicar se me estiverem a ler através do vosso sistema de referências cruzadas por palavras suspeitas. O Provedor

quinta-feira, outubro 06, 2005

Rerum Politicae

Os meus amigos sabem que este espaço não costuma ser ocupado com mariquices em torno da política, do futebol e mesmo da religião. É um espaço isento. Este pequeno introito serve para lavar a cara do que se falará à frente, o que o título bem consagra. Assim, não se tratará da Política, antes das coisas da Política, o que é manifestamente diferente. Falo, é claro, de campanhas elucidativas do que os principais partidos, qual o mais infeliz, estão apostados a fazer. Assim vai a Política em Portugal.

#1. Manuel Maria Carrilho. O candidato PS à Câmara de Lisboa parece que foi escolhido segundo aquele sistema do pauzinho mais pequeno (ahahahahaahaha), por tão ridículo. O menino enfezadinho até parece que foi metido à pressa dentro de um fato Armani. Mas o Prof. Carrilho é bom para debates à base do insulto, se bem que lhe faltava um estagiosito aqui pelo Norte para aprender uma bocadinho de retórica de mercado. O maior trunfo da sua campanha, a futura primeira dama Bábá Guimarães só dá que pensar: ela escolhe-lhe as roupas para o dia seguinte, como qualquer esposa devotada; ele escolhe-lhe as leituras, sugere as adjectivações a utilizar no culto programa televisivo que ela apresenta e explica-lhe que Schopenhauer era um filósofo alemão e não o termo germânico para mamada prolongada (chupen+hour).
#2. Do PSD só me dá para reflectir sobre isto: o Alberto J. Jardim ameaçou que se o PS ganhar na Madeira não haverá verbas para ninguém; já tardava o tempo da chegada da Democracia ao nosso enclave separatista.
#3. Só há uma palavra que consegue sintetizar as acções de campanha da CDU: previsível. Se as quiser evitar, não apareça à porta de fábricas durante os próximos 237 anos.
#4. Uma coisa é certa: dá para ver que as festas do Avante (do PCP) serviram para alguma coisa: pelo menos inspiraram a campanha do Bloco de Esquerda, pois trata-se de uma campanha eclética, longe do cinzento que colora as demais campanhas. Exemplo: já lá vi peças de teatro de rua, ganza, circo, marionetas, karaoke político estilo DVD’s Louçã (não confundir com K7’s Cunhal), música alternativa e marijuana. Sim senhor. Um exemplo. E tudo gratuito.
#5. A campanha do CDS-PP é, por seu turno, antipoda da do BE. É coerente e homogénea. Bem dentro daquilo que ficou escrito no manual de campanhas do seu Grande Timoneiro, A Arte da Feira, a guerra autárquica deve ser levada às feiras e cada combatente equipado do M64 político, a saber, sacola com calendário+ programa +poster +esferográfica + autocolante, sem mais artifícios que não seja aquele ar de gajo a quem lhe atiraram uma peruca manhosa à foda-se para cima, e aí vamos nós! Alguém tem é de lhes explicar que os feirantes não votam, porque também se fazem feiras aos domingos.
Até Amanhã, Camaradas, como dizia o defunto Manuel Tiago.
C.

quarta-feira, setembro 21, 2005

Carta Aberta ao Sr. Dan Brown

Excelentíssimo Senhor,
Fui na onda e li o seu romance (as palavras são suas) O Código da Vinci. Li e li com cuidado, mas digo-lhe já que não repetirei o erro de ler outra diarreia mental de Vossa Senhoria, como o Anjos e Demónios. É que tenho medo que o seu estilo fácil seja contagioso. Sim, leu bem. O seu estilo literário é fácil. Fácil do tipo literatura de aeroporto. E é incrível que uma pessoa bem formada como é o caso de Vossa Excelência caia tão facilmente no género que se apresenta nos escaparates das lojas de aeroporto.
Convenhamos. O assunto não é novo. Cristo, Maria Madalena, evangelhos apócrifos, manuscritos do Mar Morto, o Santo Graal, Leonardo. Até aqui tudo bem. O engraçado é misturar tudo com Opus Dei. É a mesma coisa que meter num saco seis bébés e uma cascavel: é tudo muito bonitinho até que começa a polémica. O pior é quando Vossa Senhoria empeça a desenrolar a teia de acontecimentos que apesar de até certo ponto bem urdida, acaba por se tornar uma chachada à americana. É que tudo bate-demasiado-certinho, não há o Princípio da Incerteza que reveste a melhor literatura. Vossa Senhoria já alguma vez ouviu falar de figuras de estilo e ambientes psicológicos? É que as suas descrições dos ambientes é risível e os únicos momentos em que se lê uma metáfora é quando a personagem diz “excelente metáfora essa” ou “nunca tinha ouvido uma comparação tão boa”!
Depois, Senhor Brown, os seus personagens são risíveis. O simbologista Langley é o tipo de herói que os americanos da classe média almejam (almejam = desejam): meia idade, não é atraente mas inteligente, domina um assunto que mais ninguém domina (isto é, não há lugar ao contraditório) e resolve todos os enigmas ao melhor estilo do Inspector Colombo, o olho meio vesgo a tirar ilações a saca rolhas. Depois a heroína Sophie, com aquela luta interna com o Avô (Freud chamava-lhe complexo de Electra, eu chamo-lhe o Complexo da Heidi), ainda por cima criptologista (mais uma especialista numa merda que ninguém domina; só faltou o neurologista e o Horatio do CSI-Miami). Ainda há um fanático religioso albino, um académico tarado pelo Santo Graal e um inspector chamado Bezu Fache. Bravo!
Mas o golpe final surge na miríade de descrições pormenorizadas em que mostra que se documenta para escrever as suas patranhadas. Exemplos: o avião de Teabing é um “Elisabeth Hawker 731 com motores TFE”; já o todo-o-terreno dele é um “Range Rover Jar Black Pearl 4x4 com transmissão normal com faróis de alta potência de polipropileno, montes de luzes nas traseiras”; enquanto a pistola do Silas é uma “Heckler and Koch”. Ó Senhor Brown: Vossa Senhoria deveria começar a pesquisar material nas bibliotecas e em livros, não em revistas como a Autosport, a Hangares e Hélices e catálogos da Redoute e da Loja Raposa!
O problema é que toda a gente decidiu editar sequelas: o código descodificado, Maria Madalena factos e mitos, a mentira por trás do código, etc. E a Igreja Católica até veio dar alguns toques à polémica a aguçar a curiosidade das pessoas (se calhar tem comissões nas vendas), ao condenar os trechos que abordam aquela coisada entre o Homem e a Mulher. Todavia uma coisa é certa: o povo gostou e o Senhor enriqueceu. Porque não haja dúvidas que acertou numa rentável fórmula editorial: Cristo Vende! Descanse Vossa Excelência, que se for excomungado como o Saramago (que também já escreveu sobre os amores de Cristo com Madalena), pode ter a certeza que também receberá o Prémio Nobel, não da Literatura, mas da Física, porque descobriu uma forma de transformar merda em folhas!
Com os mais respeitosos cumprimentos,
Croius