segunda-feira, julho 30, 2007

Uma Questão de Propriedade

Propriedade. É disto que se trata. A César o que é de César.
Grandes e inusitadas cheias na Grã Bretanha e a Direcção de Informação da RTP envia logo NOÉ Monteiro para efectuar a cobertura da enchente, com barbas brancas e tudo. Transcendência e rigor de proporções bíblicas. O Serviço Público está a dar a volta por cima. Assim vamos lá.

quarta-feira, julho 04, 2007

Futebol, esse grande espectáculo de cor...

Estou mortinho por ver o Nuno Gomes enfiado no novo fato de bailado do Benfica. De maillot cor de rosa, com pointes e um tutu, ai ninas, que elegância no pas de golos.

sábado, junho 23, 2007

Quanto vale a vida humana...

Há oito anos, numa véspera de S. João, apercebi-me o quanto vale a vida humana. De certo modo existe um fio de ironia na forma como, em ambiente tão festivo e popular, se conseguem observar as pequenas evidências filosóficas que norteiam a nossa parca existência. Este paleio parecia mesmo letras do J-P. Sartre.
À volta da rua onde eu morava existiam ilhas (para quem não sabe o que são, procurem num dicionário de urbanismo ou vão ao Porto e perguntem por lá o que é, menos na Câmara, porque eles dizem logo não existem) e por alturas do S. João reuniam-se os seus habitantes num animado bailarico ali defronte da maternidade Júlio Diniz. Era animação até às tantas.
Eu mais oito rapazes da casa tratamos de participar, até porque habitantes do distrito, não éramos estranhos àquela gente. E também era uma oportunidade para engatar as meninas da residência feminina vizinha que mais parecia uma congregação de freiras com recolher obrigatório às dez horas todos os dias, mas porque aquele dia era tão especial, elas tinham licença para sair até à meia-noite. E todos sabemos o que é uma mulher presa quando se apanha solta.
Iam-se embora as meninas, suadas de dançaricos e de outros folguedos, mas nós ficávamos; apontávamos então os canhões para o magote de velhas a cheirar a peixe e sardinhas e novas desdentadas com olhos de droga e passávamos a noite a dançar e a rir, entrecortando o bailado com vinho das tascas, sardinhas e cervejas.
Num deses intervalos, um dos nossos, entusiasmado com a festarola tão típica e genuína, chegou-se a uma daquelas roulottes e resolveu pagar uma rodada aos seus camaradas e aos restantes presentes
- Sai aí doze cervejas fresquinhas, qu'eu pago, caralho!
- Ah leão, dissemos nós, dando urros de alegrias.
Nisto, os três indivíduos que não pertenciam ao nosso grupo, de aspecto indizível e caras entremeadas de pólvora e fósforos, abeiram-se de nós, envolvem-nos com os braços apertados pelo pescoço e o principal deles atira
- Meus amigos, generosidade destas não se esquece; se um dia precisarem de alguma coisa, de apagar alguém, ou assim, estámos à vossa disposição. Basta chegar aqui e perguntar pelo (...)
A vida humana valia, à altura, uma cerveja; hoje, devido à correcção monetária e à subida das taxas de juro, vale um pack de seis.

sexta-feira, junho 01, 2007

A Suar Dinheiro

Interessante esta nova tendência das grandes marcas se associarem a atletas de alta competição para assim promoverem os seus serviços. Cristiano Ronaldo no BES. Também na banca anda o alpinista João Garcia. Já Nélson Évora (triplo- salto) e Nuno Merino (ginasta) fazem campanha por uma bebida energética. E lembram-se quando Francis Obikwelu acelerava no serviço 8 mb de internet para ser vencido por uma velhinha? E a Dora Gomes que fazia a publicidade a tampões OB? É que agora faz à Tampax!
Tudo oportunidades, mas existem falhanços. A Epilady falhou um autêntico Euromilhões ao não aproveitar o antes/ depois do bigode da Fernanda Ribeiro. E Vanessa Fernandes , a heroína do momento, ainda não foi repescada para o mundo do marketing desportivo. Mas não tarda muito que se veja um filmezinho na TV onde ela, depois de nadar, pedalar e correr cortará a meta e dirá, com aquele sorriso de arame:
"As pessoas perguntam-me como é que eu aguento as virilhas assadas de tanto andar por aí a correr em fato de banho. Respondo-lhes com Margarina Vaqueiro. Os assados saem sempre bem".

segunda-feira, maio 28, 2007

Duas verdades sobre o Futebol

1. Num restaurante, o cliente em conversa sobre futebol com o empregado de mesa confidencia:
"Eu não sou fanático, mas já andei à pancada".

2. Nos 20 anos da conquista da Taça dos Campeões Europeus festejada há dias pelo FC Porto, um jornalista televisivo atira a respeito dos Heróis de Viena
"Estes jogadores, vinte anos depois, estão vinte anos mais velhos".



INSOFISMÁVEL.

terça-feira, maio 08, 2007

Portugueses na Literatura Estrangeira II

Tal como foi escrito no post Portugueses na Literatura Estrangeira, dá-se nova entrada a propósito da caracterização do povo luso nas letras do mundo, desta feita no livro do grande e rubicundo Umberto Eco, A Ilha do Dia Antes,

2. Umberto Eco (Itália), A Ilha do Dia Antes, DIFEL, p. 265:

"Por exemplo em Macau, ah Macau, bastava só o pensamento daquela aventura para o padre Gaspar se transtornar. Era uma possessão portuguesa, os Chineses chamavam aos europeus homens de nariz comprido exactamente porque os primeiros a desembarcar nas suas costas foram os portugueses, que de facto têm um nariz compridíssimo, e também os jesuítas que vinham com eles. E portanto a cidade era uma só coroa de fortalezas brancas e azuis sobre a colina, controladas pelos padres da Companhia, que deviam ocupar-se também das coisas militares, visto que a cidade estava a ser ameaçada pelos hereges holandeses. O padre Gaspar decidiu fazer rota por Macau, onde conhecia um frade doutíssimo em ciências astronómicas, mas esquecera-se de que navegava num fluyt.
O que fizeram os bons padres de Macau? Avistado um navio holandês, agarraram-se logo aos canhões e colubrinas. De nada valeu o padre Gaspar esbracejar à proa e haver feito imediatamente içar o estandarte da Companhia, aqueles malditos narizes compridos dos seus confrades portugueses, envoltos no fumo belicoso que os convidava a uma santa carnificina, nem deram por isso, e força a fazer chover balas à volta de toda a
Daphne".

Umberto Eco retrata assim uma das mais conhecidas proeminências do lusitano, o nariz, grande concorrente das unhas. Se tivessem sido os italianos a chegar primeiro à Ásia (parece que quando Marco Polo lá chegou, os tamanhos ainda não eram valorizadas), os chineses decerto nomeavam os europeus por os picaretas.

Se

Sou contra discursos paternalistas do tipo Eu bem te disse ou Eu Avisei. Também não suporto as tiradas auto-promocionais condicionais, como por exemplo Se não fosse eu..., mas temos de dar a mão à palmatória e perceber a grandeza do departamento médico do Benfica que pleno de espírito abnegado, lá vai lutando para que a equipa fique no terceiro lugar do campeonato.
Se não fossem eles...

quinta-feira, abril 26, 2007

O 25 de Abril e a Sociologia das Organizações

(24.04.1974, cerca das 23 horas. Ouvem-se pancadas na porta dos estúdio do Rádio Club Português. Chega o porteiro e depara-se com quatro militares)

Militares
Isto é um levantamento militar. Pode-se entrar?

Porteiro
Um momento, vou ver se é possível.

segunda-feira, abril 16, 2007

Lesbicon Tension

Três sardinhas assadas num jacuzzi com uma garrafa de Coca Cola ... distúrbio alimentar ou uma grande perturbação sexual?

quarta-feira, abril 11, 2007

Steve

Ontem de manhã, trabalhava eu no gabinete quando comecei a ouvir um barulho ao qual não liguei muito até que me apercebi do seu produtor. Era um ratinho.
Convém explicar que presença de roedores nestas latitudes, ainda que não seja insólita, não é comum. Existe por estes lados uma verdadeira equipa de extreminadores, constituída pelo pessoal da manutenção e limpeza e pelos gatos que frequentemente se passeiam pelos terraços do edifício. Apesar de ter a envergadura do meu polegar, denota-se que este bicho é um sobrevivente. Tratei logo de o apanhar, antes que perecesse decapitado numa das múltiplas armadilhas-guilhotina espalhadas pelos recantos do edifício ou que comparecesse nas emboscadas dos gatos.

Aprisonar um rato vivo é uma arte. Carece de isco e armadilha e demais manhas, por isso armei-me de bolachas de sementes de sésamo e um tubo transparente para rolos de papel, colocando o isco junto ao fundo, com o tubo na posição de deitado. Como o invasor se havia barricado por detrás do armário, montei ali a tocaia; passados três minutos já se ouvia o rilhar da bolacha amplificado pela acústica do tubo. Steve McQueen estava na cela.

As senhoras da limpeza vão-se passar quando virem o Steve no T3 de acrílico que lhe comprei nos "chineses". Prometo que lhe darei comida, água e boa música ambiente; em troca ele dá-me a sensação de que estou no controlo de algo na minha vida. Ah! E pode utilizar a net à noite, quando eu por cá não estiver.

sábado, abril 07, 2007

Agora, a sério...

Nos dias correntes começo ficar assaz impressionado com o ganho de profundidade da expressão "brincamos ou andamos a colar cartazes?".

quinta-feira, abril 05, 2007

O Exame

Então o nosso polígono arrectangulado à beira-mar despejado anda em alvoroço por o Primeiro-Ministro não ser engenheiro por causa de um reles exame? Um exame que apresenta uma única (e dificílima) questão:
Indique o número de conta da qual poderemos debitar directamente a sua mensalidade da Ordem dos Engenheiros.

VER-GO-NHO-SO! Anda por aí muito Dr sem Doutoramento e ninguém lhes anda a espiolhar as carreiras académicas! Cambada de Pelintras!

Ass: Dr. Croius

sexta-feira, março 23, 2007

Uma Fábula dos Monumentos

Era uma vez um monumento, daqueles antigos e importantes, desses de granito suave, tão suave que os homens que o emparelhavam nas fiadas cada vez mais altas das paredes sentiram uma necessidade premente de moldá-lo em rendilhados, figurações e feitios, tantos e tão variados, que as peças de granito assim aglomeradas compunham um edifício monumental.
Veio um pombo, porque um monumento tão perfeitamente estético é o poiso mais procurado pelos pombos, pois eles são amantes da arte e da arquitectura.
Com esse pombo vieram mais pombos, que gostavam de ali nidificar e chocar os seus ovos, depois criados borrachos, que são os filhos dos pombos. Depressa o monumento se tornou uma cidade de pombos.
O problema é que como todos os bons amantes de arte, os pombos demonstram o seu amor babando-se, mas sob a forma de guano branco. Os monumentos são mais amados na razão directa da sua patente brancura.
Mas um dia os homens fartaram-se de limpar o guano dos pombos, alegando que todo aquele amor desabrido fazia mal ao monumento e instalaram um sistema de transmissão de ondas rádio, programados para uma frequência que causava mal estar aos pombos.
A colónia de pombos que habitava no monumento alvoroçou-se. Muitos arrulharam que a chegada do novo sistema era sinónimo de mudança para outro monumento e todos sabiam o quão difícil era encontrar outros monumentos bonitos desocupados. Os mais jovens e os que não tinham família para sustentar ainda levantaram vôo e tentaram a sorte em outros pombais monumentais; mas a maioria resolveu arriscar em continuar no monumento.
O sistema, logo que ligado, começou a afligir os pobres pombos: sofriam de desorientação e desiquilíbrio, de uma permanente sensação de azia e de dores de cabeça. Os centros de saúde dos pombos não chegavam para acolher tantos doentes e os culumborenários, médicos dos pombos, não tinham asas a medir. O caos tinha-se instalado no monumento.
E as companhias farmacêuticas dos pombos esfregavam as asas, pedindo ao Deus das pombas para que os homens instalassem mais destes sistemas nos outros monumentos.

quarta-feira, março 21, 2007

La Facade

Porque hoje é dia Mundial da Poesia (e da árvore, etc, etc) lanço aqui uma elegia de minha lavra subordinada, redundantemente, à tragédia. Um drama de faca e alguidar ocorrido numa qualquer pensão manhosa eivada de putas e de chatos, à razão de uma por cada mil, com acesso aos quartos por meio de um ascensor de portas de rede ao melhor estilo dos filmes harcore da escola francesa de meados dos anos setenta. Chamei-lhe e ainda chamo, La Facade.

La Facade

Clamei, manobrando o cutelo
Tragédia! nos exíguos quartos.
Tinto, o tapete de curto pêlo,
cinjo o cinto, pego nos sapatos.
A escada negra, rubro corrimão,
calam-se as putas, fogem os chatos,
o sangue escorrendo para o chão
pelas frinchas do soalho da pensão.

Do Cacete

Breve sinopse do percurso político d’el Rei D. Miguel, 30º monarca português, de cognome o Caceteiro.

Portugal, século XIX. Arriba rapazola do Brasil e desembarcando em Lisboa, não gosta nada (com sotaque carioca, né) que seu pai D. João VI se dê com os liberais. Resolve organizar um golpe a, Vila Francada, chegando a Comandante-Chefe do Exército. Depois, como o paizinho insistisse nas más companhias, organizou a Abrilada (naquele tempo, os golpes acabavam em –ada; depois veio o -ismo). Sequestra ministros, personalidades e o rei, argumentando que os maçons conspiravam contra a vida do obeso monarca, propondo-se defendê-lo e a salvar-lhe a vida. O pai, como recompensa, manda exilá-lo na Áustria. Volta passado alguns anos, para regente, manobrando, ardiloso, até que, apanhando-se por cima, pimba, pimba, aqui D’El Rei que sou Absoluto. De cacetada em cacetada (ou em portugueís do Brasiu, di cassêtchi em cassêtchi) perdeu a guerra civil contra o irmão e ingressou no exílio até ao fim da vida.

Sem cair naquele chavão da História que se repete, olho para trás e apetece dizer, Ah Paulo, se te chamasses Miguel, contava-te uma boa...

terça-feira, março 20, 2007

Mais Heróis

Actores, pintores, escultores, medicamentos e pessoas que estiveram algures na Arábia Saudita, cujos nomes acabam em hãn:

Ricardo Montalban

Paul Gaughin

Auguste Rodin

Gorosan

Artur Albarran

terça-feira, março 13, 2007

Nem de Propósito...

Saiu no Público esta notícia intitulada “Embaixador alcoolizado e Nú”:

“A polícia de El Salvador só percebeu que aquele homem alcoolizado e nu - à excepção de alguns acessórios sado-maso - era o embaixador de Israel depois de lhe retirarem uma bola de borracha da boca, o que lhe permitiu falar, descreve a BBC. Na sequência do incidente embaraçoso, o embaixador Tzuriel Refael foi chamado de regresso a Israel e despertou no país o debate sobre o modo como são escolhidos os representantes diplomáticos...”

Quando chegar a Tel Aviv, o menino vai levar tau-tau...

segunda-feira, março 12, 2007

Portugueses na Literatura Estrangeira

Este post-scriptum remeteu-me para a imagem que os estrangeiros têm dos portugueses. Nos finais do séc. XIX Victor Hugo disse “se aos espanhóis tirarmos as qualidades, ficamos com os portugueses”. Lindo, não é? Como anda a cotação do povo luso na literatura mundial? Revê-se no Oliveira da Figueira de Les Aventures de Tintin? Ou no bitter Vasco Pulido Valente, o personagem português de Bilhete de Identidade da M. Filomena Mónica? De tempos a tempos, enfatizamos passagens da literatura mundial (garantidamente genuínas) onde pontuam personagens portugueses.

1. G. D. GOLD (EUA), Carter Vence o Diabo, p. 369-370:

“Um dos quartos estava ocupado por Tony Alhino, que Griffin já tinha entrevistado uma vez. Alhino, de vinte e sete anos, português, dirigia o serviço de bebidas do Palace e tinha levado a Harding o seu último copo de água. Como o seu turno começava às quatro, não havia razão para estar no quarto quando Griffin bateu à porta. Mas estava. Era um homem moreno, com um bigode farto e as faces marcadas pela acne e, no momento em que viu Griffin, pôs um ar de culpado por todos os crimes cometidos no estado da Califórnia.
- Tony Alhino?
- He...
- Griffin, do Serviço Secreto. Já falámos uma vez.
- Macacos me mordam! – respondeu Alhino. Com o choque, falou em português mas, quando as palavras lhe saíram da boca, extraiu delas uma espécie de poder com um sorriso, como se uma segunda língua lhe proporcionasse uma vantagem sobre Griffin.
Griffin disse então a primeira coisa que lhe veio à cabeça – quero lá saber se os macacos te mordem.
Alhino ficou absolutamente mudo. Griffin decidiu pressionar.
- Ouve cá, amigo, vamos falar duma garrafa de vinho.
- Oh não! – Alhino sentou-se na cama. Enfiou a cara nas mãos. – Tenho oito irmãos e irmãs.O meu pai é barbeiro, mas está a ficar com os tremores.
- Onde está a garrafa de vinho?
- Não posso perder o emprego – gemeu ele.
Griffin tinha-se cruzado com vários tipos de choramingões na vida. Até sentia pena deste, no seu quartinho de janelas sujas. A cama era demasiado pequena para se sentar também, pelo que se acocorou e disse afavelmente: - É muita areia para a tua camioneta – era uma expressão popular que os adultos usavam quando diziam às crianças que alguma coisa excedia as suas capacidades.
- Onde é que aprendeu a falar português? – perguntou Alhino entre fungadelas.
- Com a minha ex-mulher – Esfregou o queixo. – Gostava de saber o que ela berrava quando me estava a atirar com cadeiras.
”

Está aqui tudo: a infelicidade do nome (mas antes Tony que Óscar), moreno e de bigode, profissional de hotelaria, família numerosa e grandes embrulhadas por causa da imortal garrafa de vinho... e preciosa alusão do americano à elegância e compostura da fêmea lusa nas discussões conjugais.

quinta-feira, março 08, 2007

Heróis

Grandes heróis cujos nomes terminam em hãn:


Conan

Rantanplan

Sandokan

Tarzan

Arsène Lupin

Tintin (pronunciado em francês)

quarta-feira, março 07, 2007

Da Hipocondria II

No seguimento do estudo de hipocondria apresentado no outro dia, eis uma outra variante.

# 3. Hipocondria itinerante: forma epidémica de hipocondria que se encontra um pouco por todo o lado, mas com mais expressão nos transportes públicos, táxis, autocarros e comboios. A descrição da sintomatologia incluem generosas alusões a todo o panteão católico, alternado com o rol de maleitas e de cirurgias por ela experimentadas.
A título de exemplo, relatarei
(como se fosse António Lobo Antunes) um diálogo verídico a que assisti entre dois passageiros do comboio.


Arrasta-se a composição pela linha, deixando a gare suja de fumo e cheiros a diesel e, percorridos alguns metros, já uma senhora se vai lamentando,
- Oh, isto aqui é a ponte?
metálica sobre um rio ancho, parado e azuláceo, olhando um homem dos seus quarenta que acusa a inquirição
- É
e logo a senhora desmancha num choradinho
(olho de relance o pato aprisionado naquela teia de lágrimas secas)
- Mas como é que eu falhei a estação, Meu Deus? É que eu tinha uma consulta no médico, ainda por cima tão ruim de marcar...
- E a senhora vem de longe?
- Venho desde S. Bento
(uma terra perdida nos montes, encruzilhada de caminhos, apeadeiro de diabos, daí o nome)
- de autocarro até Vila Nova, ali queria apanhar o expresso para a cidade, mas disseram-me que o comboio era mais rápido; como queria passar pelos correios e depois ia tirar sangue, quis aproveitar o chegar mais cedo, ainda por cima ando tão mal desta perna...
- A senhora não está bem?
a indignação crescendo na senhora
- Não estou bem? O senhor nem queira saber, já fui operada ao coração no estrangeiro, mas deram-me uma transfusão de sangue que não era da minha qualidade e fiquei paralisada do lado esquerdo
(a qualidade dos sangues e da saúde do país afinal está ao nível da média europeia, que a velha não tem cara de ser apologista do sistema de saúde cubano)
- e depois até me tiraram a vesícula e ganhei uma úlcera no estômago, enfim, fora as drogas que tenho de tomar para isto tudo...
(o rapaz vai sorrindo, como se os sorrisos ou a pena curassem a velha)
- e este meu joelho que não deve estar nada bem...
o comboio pára, vou saindo e pensando
(fora as drogas, ainda bem que não me puseram a médico)